Girou a chave e depois o corpo, apoiando-se na porta atrás de si. Agora era só ela, Gabriela. Ela e o silêncio que preenchia a sala. Ainda podia ouvir os passos descendo a escada. Deixou-se deslizar e sentou-se no chão, sob o peso do cansaço. Depositou ao lado de si o que restou do pagamento a seu Antônio, o dono da caminhonete. Enxugou com a mão a testa suada dos quatro lances de subida e suspirou, contemplando a recém-chegada mobília.
Pouco importava a ela que não combinassem com a cama ou com a mesinha dobrável, nem com o banquinho disfarçado de suporte de TV. O pequeno apartamento era mesmo uma colcha de retalhos, tecida por doações dos parentes. E, para a colcha de Gabriela, o par de sofás era o arremate perfeito.
Conjunto estofado, dois e três lugares, acompanha almofadas. Talvez fossem anunciados assim pela loja, trinta anos atrás. Ou quem sabe tivessem um nome de mulher, como a “cozinha Luciana” e o “guarda-roupas Denise”, mostrados no folheto jogado embaixo da porta no dia anterior. Coubesse a ela batizar o par, chamaria-o Marlene. Era este o nome da feliz compradora dos móveis que, anos mais tarde, viria a se tornar sua mãe.
Já não eram novos, e talvez isso dissesse que ela também já não era. Sorriu ao reencontrar o rasgo produzido pelo Ki-chute do primo numa brincadeira de Jaspion e a marca do relacionamento breve, mas quase fatal, entre sua irmã mais nova e um pacote de balas Soft. Viu-se novamente ao lado do pai, que sacudia pelos pés a pequena sufocada, e lembrou-se do pedido feito ao anjo da guarda, para que salvasse aquela criaturinha irritante em troca de umas figurinhas Amar É. Promessa que foi esquecida, claro, assim que a guria ganhou um tapa nas costas e o estofado verde-abacate, uma mancha de vômito.
Verde-abacate. Mas que gosto tinha esse povo dos anos 70. Assim lembrou-se dos vestidos das tias, TV com botão que gira, pique-pega na rua. Ouviu passos de criança chegando mais perto, e sentiu cheiro de bolo no forno e café quente invadindo o pequeno cômodo em que agora vivia. Esqueceu-se do seu dia-a-dia e sorriu como aos sete, encostada na porta, sentada no chão. E pediu ao seu anjo da guarda que lhe mantivesse pra sempre bem viva a memória, mesmo sem figurinhas ou doces para dar em troca.
Sim, era só ela, Gabriela. Mas agora ela tinha sofás.
Passeio ecológico em pleno Carnaval?
1 dia atrás
1 comentários:
SUA PIRANHA, FAZ UM BLOG E NÃO ME AVISA!!
BONITO BONITO!!
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