quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Palíndromo

Nasceu com espelhos nas vistas. Explicava assim a mãe boquiaberta às senhoras do bairro, ainda sem crer. Enquanto isso, o pequeno se ria sozinho, sem nem se importar. Inclinava o rosto – e seus olhos de espelhos – para um lado e para o outro, gargalhando ao diminuir as cabeças e aumentar os quadris das roliças vizinhas.

Ninguém sabia como havia acontecido. Natan nascera forte e sadio, no tempo certo. Viera ao mundo juntamente com o sol, ao amanhecer. Os pequenos olhos castanhos refletiram os primeiros raios, sem ninguém perceber. Encantou-se com a médica, o pai, a mãe. E por seu ar curioso, julgaram-lhe esperto.

Por talvez um ano ou mais ninguém percebeu que a vida, para Natan, tinha formas assim, diferentes. Ao mesmo tempo em que aprendia a mover os pezinhos, mexia também os pequenos espelhos, ocultos ainda aos olhos do mundo. E aos poucos se deu conta de que poderia dar a tudo a proporção que quisesse, inclinando-se pra lá e pra cá.

Com o passar do tempo chamaram de mania o costume do menino de fazer tudo ao contrário. É coisa da idade, pra chamar a atenção. Assim a vida transcorreu bem, enquanto do avesso ficavam apenas os blocos de montar. Os problemas chegaram na mochila da escola. Um bilhete para a mãe, um chamado da diretora.

Natan começava as palavras de trás pra frente. Era essa a queixa da mulher. No final das contas o resultado era igual, posto que copiava, lá do seu jeito, o que via também do seu jeito no quadro-negro. Com um lápis na mão o garoto escreveu seu nome, o nome da escola e a data do dia, em legível caligrafia. E a mãe, apesar de tudo, não achou tão ruim assim.

- É, realmente, começou de trás pra frente. Mas se ficou certo, que problema tem, não é? Deixa estar, que um dia ele se emenda...

- Mas senhora, desde que me entendo por gente, escrever é da frente pra trás.

Preocupada, já em casa, pediu então ao filho que deixasse essa mania. Que escrevesse direitinho, da esquerda pra direita, como os outros coleguinhas.

- Eu só copio a professora, mãe. E é assim que ela faz. Assim, que nem eu.

Pareciam bem sinceras as palavras do menino. E sincero se tornava o aborrecimento da mãe, já sentindo que havia algo errado em seu pequeno. Foi aí que começou a sucessão de especialistas. Psicólogo, professora, clínico geral. Doutores dos olhos e dos nervos. Pediatra, pedagoga, padre. Até uma senhora do bairro mandaram vir, famosa que era por um terço de contas que passava em torno do corpo das crianças, e diziam curar qualquer choro, dor de gases, mau olhado.

E Natan seguia a vida, dia a dia, trás pra frente. Os amiguinhos, ao contrário dos adultos, não ligavam para a direção de suas letras, para os risos aparentemente sem nexo, ou para o olhar meio de lado. Queriam mesmo era ter no time de futebol o garoto malandro, que enganava o goleiro adversário mirando o lado contrário ao que ia chutar.

Até que um dia um doutor da capital declarou o veredicto. Daquele mesmo jeito que seria repetido depois, por ruas e janelas de voraz curiosidade.

- Mas como é que pode, meu senhor? Se eu nunca nem engoli espelho...

Aí foi mãe caindo em prantos, pai que quase desmaiou. E nessa hora só Natan se divertia, após vencer o primo por seis pênaltis seguidos. Esbanjava a habilidade que só ele possuía, enquanto os pais, no consultório, agendavam a cirurgia. Nem ouviram os termos técnicos que saltavam da boca do médico. Só sabiam que lugar de espelho, definitivamente, não era dentro de olho de gente.

Por cuidado com o futuro, apesar de um certo medo, decidiram que o mais certo era o mais certo oferecer. Natan agradeceria, na melhor ocasião, a normalidade que, ainda criança, recebia de presente. Seria enfim, igual aos outros, sem bilhetes na mochila, sem olhares dos vizinhos, sem chamar a atenção.

Repetiam um ao outro, pai e mãe, essas promessas de amanhã, entre passos aflitos na sala de espera. Cirurgia arriscada, trabalho de horas. E um rosto frustrado enfim a caminho, daqueles que não precisam mais nada dizer. Com mais palavrões da tal medicina, o doutor explicava o fracasso ao pobre casal. Dos espelhos nos olhos, restavam só cacos, quebrados lá dentro sem chance de remoção.

Ao lado da cama, mãe e pai se perguntavam que dificuldades o futuro traria para aquele pequeno, agora ainda mais distante do que chamavam normal. Só Natan sorria. Talvez nunca mais copiasse as mesmas letras, ou visse com clareza a bola e o gol. Mas sorria encantado com as cores e formas, únicas a cada movimento, que só seus olhos de caleidoscópio poderiam ver.

5 comentários:

Arlete disse...

Você, realmente, tem muito talento (eu sou suspeita, mas vc tem).
Muito bom mesmo!

Thaís disse...

Eu também sou suspeita.
E concordo plenamente com a mamãe.
Lindo lindo, Van!

lucas disse...

Valeu a noite. Obrigado.

lucas disse...

Como dito: trasnsforma em poema que vira mũsica... vale o desafio.

Anônimo disse...

lindo