Sim, ela ainda freqüentava lojas de discos. Gostava, sabe-se lá por que, do ar nostálgico e introspectivo do ambiente, do cheiro de ontem, da fina poeira que, apesar da limpeza, estava sempre lá. Quem ia a lojas de discos, pensava consigo dia desses, não ia em busca de discos. Tentava comprar com dinheiro o gosto de seus grandes dias, correr atrás do que havia ficado, justamente, para trás. Contrariada, ao se ver refletida nessa imagem, Ângela desviou o pensamento. Andou até a prateleira seguinte e começou a remexer distraidamente os vinis, acompanhando a música de fundo e observando de relance o rapaz gordo do balcão, que cantarolava e batia discretamente os dedos no ritmo da bateria.
Foi então que aconteceu. Do meio da pilha de discos, num álbum de capa amarela, um par de olhos gelou-lhe a espinha. Os olhos de Paco. Dez meses depois, os olhos de Paco. Como poderia? Seria ali, naquela prateleira, o portal para o passado, que tantos procuravam naquele porão de velharias? Por alguns segundos, Ângela continuou imóvel, as idéias rodando sem tomar lugar. Tornado Periférico. O alívio, a explicação. Não eram, afinal, os olhos de Paco. Lembrou-se de duas ou três vezes em que ele lhe falara da banda: “sensacional, mudou minha vida.” Apesar disso, não era sempre que se referia a ela. Confidenciava, em tom solene, para logo depois guardar o tesouro de novo pra si.
O rapaz que a atordoava na capa do LP não era Paco, mas bem poderia ser. A mesma inclinação de cabeça, o mesmo cabelo cuidadosamente desarrumado. E o olhar, “aquele assim meio de lado, já saindo”, como dizia outra música antiga. George Tramp, brasileiro de nome inglesado, vocalista e galã do Tornado Periférico. Muitas outras deveriam ter sido, pensou Ângela, paralisadas por aquele olhar, ao som do pop-rock com um certo toque americano dos anos 80. Esqueceu por um momento a mágoa de Paco (a culpa é dessa maldita nostalgia da loja de discos, esquivou-se), pagou pelo álbum de capa amarela e saiu.
Trancou a porta do quarto, meio desconfortável, como se estivesse de novo ali sozinha com ele. Então lembrou que “ele” era só o George Tramp, aquele pseudo-estadunidense. E em papelão. Jogou a capa na cama com ar de desdém e ajustou a agulha do toca-discos. Sim, ela ainda tinha um toca-discos. “Tornado Periférico... tá bom... vamos ver o que é tão sensacional.” Não sabia por que, nos dois anos ao lado de Paco, nunca tinha chegado a ouvir a banda. Mas os primeiros acordes de Subverta o sistema, a faixa de abertura, transportaram-na para um mundo com algo familiar. Ajeitou o travesseiro sob a nuca, barriga pra cima, braços pra trás.
“a ração de cada dia, de cansaço, incompreensão...”
Arregalou os olhos num susto. Roda de amigos, fim de noite, fim de ano. Comparecera a convite de Tássia. Segundo a amiga, Ângela precisava sair mais de casa, conhecer gente nova. Divertiam-se, afinal. E entre churrasco, cerveja e um papo furado qualquer sobre a vida, um dos rapazes, o mais calado, filosofa: “às vezes o que falta é um sentido, sabe? A gente tem que querer mais que essa ração de cada dia, de cansaço, incompreensão.”
Silêncio. Gênio. Inovador. Interessante. Conhecer gente nova.
- Tássia, quem é aquele?
- Quem?
- Aquele, da camiseta cortada.
Cortada como a de Tramp. Quem era esse cara pra meter numa música a frase que dera início a sua história com Paco? Conferiu a data do álbum: 1992. Isso mudava a figura de quem plagiava quem.
“quero te dar todos meus fins e começos... minha falta de ar, meus tropeços”
Não. Essa não. Aniversário, dois anos atrás. Uma cesta cheia de pequenos presentes fofos e o cartão mais lindo de sua vida. Os fins e começos de Paco passando nas mãos das amigas. “Anginha, a coisa ta séria hein? O cara ta apaixonado!”, diziam, com uma pontinha mal disfarçada de inveja. Ela sorria, se achando a tal. Será que alguma delas já escutara o Tornado? Sentiu vergonha. O cartão que ela ainda lia secretamente, vez ou outra, ecoando pelas caixas de som. Certamente, milhares de outras já haviam merecido os tropeços de alguém.
Não passou da sexta música. Foi a gota d’água. Ângela podia jurar pela mãe mortinha que “cada um dos meus poros toca um rock por você” não tinha soado cafona assim na voz de Paco. Não entre os lençóis, com o barulho da chuva fina nas telhas metálicas da casa ao lado. Os dois entrelaçados. Os dedos dele, o rosto dela. “Baaaaby”. Desligou o som, vermelha e muda. Não deixaria ninguém mais chamá-la de baby, assim, prolongando a primeira sílaba. Muito menos no volume 10, com cem mil cópias vendidas.
Jogou-se de novo na cama. Viu-se outra vez no recreio da escola, os meninos trocando dicas de como reconhecer um boné original: pininho de ferro no topo da cabeça, do lado de dentro, sete linhas de costura na aba. Ou seriam nove? Não lembrava, nunca se interessara mesmo por bonés. O que as meninas estariam fazendo naquela época, ao invés de aprenderem a distinguir exclusividade nas cartas de amor? Ah, as Barbies. Coisa inútil.
George Tramp em seu colchão. Papelão, fundo amarelo. Pensou em Paco, do outro lado do mundo. Devia estar se dando bem. Tivera muito tempo pra treinar aquele ar metido a inglês. Neblina e “baby” em ouvidos britânicos, talvez. Não queria nem pensar. Já não era ciúme. Era mais uma perda, suave e indefinida. Pior do que, antes e depois dela, outras mulheres o terem conhecido.
Antes dela, alguém o tinha inventado.
A testosterona dos engenheiros
3 dias atrás
1 comentários:
Ai, essa minha amiga escritora. Faz pular de felicidade um coraçãozinho que há tempos esperava um novo post.
E para variar, ela se supera.
Te amo!
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